sábado, 14 de novembro de 2009

TEXTURAS HUMANAS

Definitivamente andar de transporte público é uma aula de sociologia. Nos ônibus, trens e metrôs que atravessam de cabo a rabo as entranhas da cidade de São Paulo, podemos ver todo tipo de pessoas, que se diferenciam por uma estrondosa pluralidade étnica, cultural e social.

E num desses dias de semana, em que eu estava de folga e não tinha nada para fazer, resolvi visitar novamente o Museu da Língua Portuguesa, ali na Luz, bem no centro da Capital.

Como não tenho paciência nenhuma para enfrentar esse trânsito maluco e acredito que os preços exorbitantes cobrados pelos estacionamentos da cidade caracterizam-se como “prática de extorsão”, peguei o trem em Carapicuíba e segui viagem tranqüilo até a Estação Julio Prestes.

Durante o percurso comecei a me divertir ao observar um grupinho de adolescentes que deviam ter cabulado aula para dar um “rolê” na Galeria do Rock. Não sei por qual motivo, duas garotas do grupo se ofendiam mutuamente, enquanto o resto da galera ficava ao redor zuando e botando pilha para que a discussão tomasse maiores proporções e a briga ficasse mais interessante.

No começo estava bem engraçado de se ver, pois as ofensas eram bem pueris: “Você tem bafo de urubu!”, “Você é vesga!”, “Quando você nasceu sua mãe jogou a criança fora e criou a placenta!”, “Você é a cara do pai do seu vizinho!”, “Você é tão feia que a única pessoa que te beija é seu pai, pra te dar boa noite!”, e etc, etc, etc... E a galerinha ia à loucura a cada perversidade que uma garota dizia para outra.

Porém o ambiente começou a ficar desconfortável (pelo menos para mim), quando, no afã de vencer aquela batalha “intelectual” (quase um repente pós-moderno, harmonizado com um infante ranger de dentes rancoroso) as garotas começaram a desferir algumas ofensas racistas uma à outra.

Uma das meninas era loira e a outra era negra. A loira dizia, “Quem você pensa que é pra falar desse jeito comigo, hein sua macaca?”. A negra respondia, “Você não sabe quem eu sou nem quem você é, porque a falta de inteligência está estampada na sua cara, sua loira burra!”. A loira retrucava, “Maldita Princesa Isabel, viu! Quem mandou libertar esses escravos!”. E vinha a réplica da negra, “Quando você morrer seu caixão vai ser em forma de ípsilon (Y), porque não vão conseguir fechar suas pernas, loira vagabunda!”... E a galerinha ia ao delírio... E eu me afundava em meu particular mar de desgosto...

Pasmo eu observava aquela disputa titânica de duas pessoinhas que tinham ilimitados argumentos para depreciar e desmoralizar “o outro”, mas que não tinham a mínima noção que aquela “brincadeira” era imoral e alimentava malignamente a já deturpada personalidade de ambas.

O mais incrível é que elas nem se sentiam ofendidas e riam muito durante os infindáveis rounds verborrágicos. Mal sabiam que naquelas afirmações veladas de divertimento encontravam-se subliminarmente muitas centenas de anos de segregação e preconceito (de ricos contra pobres, de negros contra brancos, de orientais contra ocidentais, etc...), que foram cultivados de geração em geração com essas “brincadeiras”, pela família, pelo grupo social, pela escola, pela religião...

Essas adolescentes são vítimas do meio em que foram criadas e que vivem, são o produto de uma sociedade que se impõe pelo poder secular de ideologias nefastas que seduzem mentes despreparadas, por isso tratam o assunto “ofender e agredir gratuitamente o outro” com uma naturalidade desesperadora.

É engraçado que em um país continental como o Brasil, onde houve e ainda há uma das maiores miscigenações do mundo, esse comportamento racista seja habitual como tomar um cafezinho. É possível que aquela bela adolescente loira no futuro se case com um belo negão, e aquela bela adolescente negra se case com um belo polaco, pois isso também é muito natural em solo tupiniquim, o que mostraria que nem racistas elas são. Porém, uma coisa nunca vai mudar, sempre que elas se sentirem inseguras ou ameaçadas, e seu iminente “agressor” for um não igual ou não semelhante (étnica, social e culturalmente falando) elas voltarão inconscientemente a apresentar um comportamento segregacional e, por reflexo condicionado, se protegerão com suas oratórias racistas, pois, infelizmente, esses discursos já estão prontos e incrustados em seus DNA’s.

Melancólico, segui minha viagem.

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POEMEDITANDO

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NÃO EXISTE COR, SÓ AMOR

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Ninguém deveria escutar

O que deveria ser indizível,

Ninguém deveria pronunciar

O que se faz desprezível

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Um belo sorriso tem tom de clamor

O sol à todos é aprazível

Não se pode segregar o amor

Pois o sentimento é invisível

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Sou negro, mas não sou cor

O valor da alma é indescritível

Não sou melhor nem pior

Apenas faço parte desse desnivelado nível

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FILOSOFALANDO

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"Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios."

( Nicolau Maquiavel )

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1 comentários:

Aliz - jornALIZta disse...



Esse é o retrato do despreparo psicológico dessa juventude que povoa as ruas e os meios, mas que ainda não entende muito bem a riqueza dessa diferença toda que a gente vê aí fora.

E na verdade, nessa troca de ofensas, mal sabiam elas que a pior agressão estava partindo delas mesmas, nessa autodepreciação. Ridicularizavam-se no meio da rua, diminuíam-se, ofendiam-se, mas não uma à outra, e sim cada uma a si mesma, com a falta de postura e de respeito com a própria imagem, desvalorizada dianta de tanta gente estranha.

Um dia hão de lembrar disso e sentirem vergonha. Tomara!